Os Thibault

"- Olha - começou com uma exaltação particular -, não sei por que já hoje te falo nisso. Aliás, teremos oportunidades de voltar ao assunto. Sabes, estou pensando numa coisa: que somos dois irmãos. Isso parece não ter nenhuma importância e, no entanto, é uma coisa completamente nova para mim, e muito grave. Irmãos! Não apenas o mesmo sangue, mas as mesmas raízes desde o começo dos séculos, exatamente o mesmo jato de seiva, o mesmo impulso! Não somos apenas dois indivíduos, Antoine e Jacques: somos dois Thibault, somos os Thibault. Compreendes o que quero dizer? E o que é terrível é justamente termos em nós este impulso, este mesmo impulso, o impulso dos Thibault. Compreendes? Nós, os Thibault, não somos como toda a gente. Acho mesmo que temos alguma coisa mais do que os outros, por causa disto: por sermos Thibault. Eu, em toda a parte onde andei, no colégio, na Faculdade, no hospital [Antoine é médico], em toda a parte, me senti um Thibault, um ser à parte, não me atrevo a dizer superior, e no entanto sim, por que não? Sim, superior, armado de uma força que os outros não têm. E tu, já pensaste nisso? Na escola, nunca sentiste, por mais desaplicado que fosses, esse impulso interior que te fazia exceder a todos os outros, em força?
- Sim - articulou Jacques, que cessara de chorar. Encarava o irmão com um interesse apaixonado, e sua fisionomia tomara de improviso uma expressão de inteligência e de madureza que lhe davam dez anos mais do que a sua idade.
- Faz já muito tempo que eu constatei isto - continuou Antoine. - Deve haver em nós uma combinação excepcional, de orgulho, de violência, de obstinação, não sei como explicar. (...) Bem - continuou, depois de uma pausa, e indo sentar-se em frente de Jacques, com o busto inclinado, as mãos sobre os joelhos, como fazia m. Thiebault - o que eu queria dizer-te, por hoje, é que essa força secreta aparece continuamente em minha vida, não sei como dizer, à maneira de uma onda, como uma dessas vagas de fundo que nos erguem quando estamos nadando, que nos transportam, que nos fazem franquear, de um pulo, um enorme espaço! Tu hás de ver! É maravilhoso. Mas é preciso saber tirar partido dela. Nada é impossível, nada é mesmo difícil, quando se possui essa força. E nós a temos, tanto tu como eu. Compreendes? Eu, por exemplo... Mas não te digo isso por mim. Falemos de ti. É chegado o momento de medires essa força em ti, de a conheceres, de te servires dela. O tempo perdido, tu o recuperarás de uma só vez, se quiseres. Querer! Nem toda a gente pode querer. Não faz muito tempo, aliás, que compreendi isto. Eu, eu posso querer. E tu também podes querer. Os Thibaul podem querer. E é por isso que os Thibalt podem empreender qualquer coisa. Ultrapassar os outros! Impor-se! É preciso. É preciso que essa força encerrada numa ração, finalmente desabroche! É em nós que a árvore Thiebault deve desabrochar: o desabrochamento de uma estirpe! Compreendes isso?"
MARTIN DU GARD, Roger. Os Thibault. São Paulo: Globo, 2001. Vol. I O Caderno Gris
Roger Martin du Gard nasceu no dia 23 de março de 1881, em Neuilly-sur-Seine, perto de Paris, numa família burquesa e católica. Graduado como arquivista paleógrafo pela École de Chartes. Em 1913 juntou-se ao grupo la Nouvelle Revue Française, que teria influência decisiva na vida literária francesa e era liderado por André Gide. Convocado pelo Exército francês em 1914, lutou na Primeira Guerra Mundial. Em 1920, em reculsão quase total em Clermont, começou a escrever Os Thibault, cujos primeiros volumes publicou regularmente a partir de então. Entre 1929 e 1936 interrompeu a saga dos Thibalt para dedicar-se à novela La confidence africaine. Em janeiro de 1936, apareceu "Verão de 1914", sétima parte de Os Thibault. em 1937, Du Gard foi laureado com o Prêmio Nobel. Em 1939, terminou o epílogo da obra. Du Gard, escreveu ainda um roteiro cinematográfico sobre duas partes de Os Thibault - "Caderno gris" e "A penitenciária"´. Morreu no dia 22 de agosto de 1958, em Terter.
P.S.: Anatole France (1855-1924), amigo e mestre de Martin du Gard, chamava-se Jacques Anatole François Thibault.

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