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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Se eu morresse amanhã

Encontrei esta pérola: http://youtu.be/CDfrY62cCEM

"Se eu morresse amanhã", de Álvares de Azevedo, recitado por Paulo Autran.

Maravilhoso.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A song for you

Ouça, enquanto lê: http://youtu.be/SX8Sb9zSO1Q

Já estive em tantos lugares na minha vida e no meu tempo
Já cantei muitas canções
Já fiz algumas rimas ruins
Já representei meu amor nos palcos
Com dez mil pessoas assistindo
Mas nós estamos sozinhos agora e estou cantando esta
canção para você

A song for you. John Milles (?)

Não tenho um intérprete preferido para esta canção. Já a ouvi com Ray Charles, Carpenters, Christina Aguilera, Simple Red e aí está com Amy Winehouse que, no momento, mais me agrada. Há um peso em sua voz, um arranjo que se inicia com o piano, como é o tradicional, mas logo é subvertido de maneira única e me arrepia inteira. Isto era Amy.

Amy a parte. A música em si me chama a atenção antes dela, há muito tempo quando eu ainda só conhecia a versão de Ray Charles. "Mas nós estamos sozinhos agora e eu estou cantando esta canção para você". Vindo de alguém que esteve representando em muitos palcos, em diferentes épocas e por muito tempo é de uma delicadeza incrível.

A música tem aquele peso de uma importante pausa na vida: Parei para pensar em toda a minha vida e cheguei à conclusão... E então se desenlaçam diante de nós reflexões profundas:

"Eu amo você em um lugar onde não há espaço ou tempo" (...) "E quando eu chegar ao fim, lembre-se do tempo em que estivemos juntos / nós estávamos sozinhos e eu estava cantando a minha canção para você / cantando a minha canção para você / cantando a minha canção / cantando a minha canção / cantando a minha canção."

Não se trata apenas de uma canção, não é mesmo?


"Então, meu amor, você não pode ver através de mim?"

Este olhar, busca o que?


"Se minhas palavras não fazem sentido, ouça a melodia"

O que é esta melodia?


Hoje eu reli um trecho do texto do Prof. Manuel Antonio de Castro, em que ele diz "Alguém que tem o hábito de leitura, de leituras substanciais, poderá viver intensamente e amenizar os sofrimentos, e fazer da solidão do limite uma convivência inimaginável. (O eu e o outro sempre nos advêm como limites, do que são e não são)". Pensei, imediatamente, o que teria sido de mim todos esses anos, desde criança, não fosse a leitura. Inicialmente, a leitura dos livros, propriamente. Com o tempo, de tudo: das músicas, das imagens, das situações, das circunstâncias, dos gestos, da dança, da arte - de tudo que fosse resultado de linguagem.

E, hoje, eu me sinto assim, como quem já esteve em muitos lugares na minha vida e no meu tempo, cantando muitas canções, fazendo rimas ruins, representando meu amor nos palcos com 10 mil pessoas assistindo e, algumas vezes, sozinha, cantando "a MINHA CANÇÂO" para alguém. Amando em um lugar onde não há espaço ou tempo, buscando um olhar que visse além de mim, que fosse capaz de ouvir a minha melodia e que, no fim, se lembrasse que "eu cantei minha canção só para você".

Nesta vida, somos muitos, somos tantas representações, vivemos tantos amores e, contudo, a "nossa canção" é sempre especial e o momento em que a dedicamos a alguém deve sempre ser inesquecível.

Interessante, quando eu ouço esta canção, não sei porquê, nunca imagino que há um receptor, um outro. Sempre a imagino como uma voz de dentro para dentro. Talvez, porque só sejamos capazes mesmo de cantar a nossa canção, assim, com toda essa verdade, para a nossa própria alma.

Impressões.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Quando não há esperança

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me revele
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de núncaras.


Carlos Drummond de Andrade

Tal qual barco sem rumo no mar é o nosso coração quando ama e é deixando ao léu. Não há consolo.

Há conforto na morte, para quem parte e para quem fica.
Há consolo nos percalços da vida, sejam quais forem.
Porém, (a ausência do) o amor não consola nunca de núncaras.

Ainda assim, eu digo que é preciso amar incessantemente, intensamente, ininterruptamente: Amar.

Para que haja dor e, portanto, alegria.
Queda e superação.
Mágoa e perdão.
Perda e resignação.
Desamor e esperança.

A vida se faz, também, de tudo que perdemos: do que é inconsolável e doloroso, portanto, de amor... que não consola nunca de núncaras.

Prefiro amar a viver um "quando não há esperança".

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mentiras do Luto

Rosamunde Pilcher disse "O que é essa morte senão um acidente desprezível?". Em toda a sua argumentação consolativa, no trecho do livro "Setembro", a questão - retórica - pode fazer sentido. Talvez faça sentido também àqueles enlutados que passaram já à fase da resignação.

Porém, me parece que os "pêsames" são a maior hipocrisia contra um dos sentimentos humanos mais instintivos que temos: amor de apego - apego de amor. Estou lá, no funeral de meu pai, chorando por dentro, por fora, por todos os poros, por todos os portos e me chega alguém que, naquele momento, poderia ser o Papa, e diz: meus pêsames! Dá-me um abraço, diz algo mais, se o consegue, e enfim, me abandona novamente a minha tristeza profunda, funda, larga, imensa, impenetrável.

Quero estar só e inconsolável. Não quero consolo para esta perda! Não quero perder! Não aceito a morte! Não aceito a partida! Não aceito aquele corpo frio e duro que jaz ali na minha frente dizendo-me: sou seu pai, sou seu pai, sou seu pai, sou seu pai. Tum tum. Tum tum. Tum tum. Ali batem dois corações: o meu e o dele, juntos. Apesar do "acidente desprezível".

O funeral passa e eu estou ali, a dor está ali, o corpo está ali e o apego está ali e permanecerá em mim. O corpo desce à terra. Palavras, últimas palavras, são ditas ao morto. Uma homenagem? Uma despedida? Um algo a dizer que faltou?

O que passa em nossas mentes neste momento quando dizemos essas coisas e fazemos essas homenagens? A quem estamos falando? Ao morto? Não! Não nos enganemos. Estamos falando a nós mesmos e, algumas vezes, aos outros. O homem, a mulher, a criança: já se foram. O que tivermos a dizer para eles o diremos diariamente pelo resto de nossas vidas, pois o luto é eterno e o consolo é uma mentira, uma farsa, uma imensa e nojenta hipocrisia.

Meu pai, minha mãe, meu filho, meu neto, meu irmão: não está morto! Está em mim! Vivo, vivo e ainda mais vivo porque necessito rememorá-lo o tempo todo para preencher o espaço que o corpo deixou vazio. A voz que não ecoa, o cheiro que não sinto, o abraço que não aperta, o beijo que não recebo, o telefone que não toca, a mão que não entrelaço na minha: tudo precisa ser preenchido. E é.

Mas não é preenchido com esperança, fé, crendices, fotos, histórias. É preenchido com dor. Com lágrimas. Com saudade. Com apego. Com amor incomensurável.

Se uma mãe não se aparta de seu filho ao cortarem o cordão umbilical, porque nos apartaríamos de nossos pais após o "acidente desprezível"?

Chorarei sempre. Sentirei a dor eterna da saudade. E considerarei a morte um acidente desprezível, sim. Desprezível, não porque meu pai somente passou a sala seguinte, como afirma Pilcher. Desprezível diante da força do amor que nos une.

A vida passada não permanece imutável, após a partida "dele". Tudo é revisto, revivido, refletido no presente deste dia a dia de saudade e dor. E não há futuro. Esta é uma outra mentira. Existe o passado, existe o presente, nada mais.

Paremos de nos enganar.

Rosamunde Pilcher

A morte não é tudo. Não é o final. Eu somente passei para a sala seguinte. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, você é você, e a antiga vida que vivemos tão maravilhosamente juntos permanece intocada, imutável. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda somos. Chame-me pelo antigo apelido familiar. Fale de mim da maneira como sempre fez. Não mude o tom. Não use nenhum ar solene ou de dor. Ria como sempre fazemos das piadas que desfrutamos juntos. Brinque, sorria, pense em mim, reze por mim. Deixe que o meu nome seja uma palavra comum em casa, como foi. Faça com que seja falado sem esforço, sem fantasma ou sombra. A vida continua a ter o significado que sempre teve. Existe uma continuidade absoluta e inquebrável. O que é essa morte senão um acidente desprezível? Por que ficarei esquecido se estiver fora do alcance da visão? Estou simplesmente a sua espera, como num intervalo, bem próximo, na outra esquina. Está tudo bem.

Trecho do livro "Setembro" (Bertrand Brasil, 16a. edição, Tradução de Angela N.Machado, pág. 450).

Rosamunde Pilcher (Cornuália, 1924) é uma escritora inglesa, nascida na Cornualha no dia 22 de Setembro de 1924, falecendo aos 85 anos depois de uma carreira da qual seu mais famoso livro foi "Os Catadores de Conchas, publicado em 1987 aos 63 anos de idade. Pilcher edita o seu primeiro livro, Half-way to the Moon, em 1949, usando o pseudônimo Jane Fraser e só após dez títulos opta pelo uso do seu nome. A Secret to Tell, publicado em 1955, é assim o primeiro dos vinte e três romances que escreve já sob o nome de Rosamunde Pilcher.